O que fazer quando o pet convulsiona
Convulsão é um dos quadros mais assustadores que um tutor pode enfrentar, e também um dos mais comuns nos prontos-socorros veterinários. Pode acontecer em cães e gatos de qualquer idade, por causas que vão de epilepsia a uma intoxicação, e costuma vir sem aviso. Entender o que está acontecendo com o pet, saber o que fazer durante a crise e reconhecer quando é hora de ir ao hospital fazem toda a diferença no resultado.
O que é uma crise convulsiva
Uma crise convulsiva acontece quando um grupo de neurônios do cérebro dispara sinais elétricos de forma desorganizada, fora do padrão normal de funcionamento. Esse curto-circuito neurológico se manifesta no corpo do pet: rigidez muscular, movimentos involuntários das pernas (o famoso “pedalar”), salivação intensa, perda de consciência e, em alguns casos, perda do controle de xixi e cocô.
Na maioria das vezes, a crise em si dura poucos segundos a poucos minutos. Mas o episódio completo costuma ter três fases, e entender isso ajuda o tutor a não se assustar mais do que precisa:
- Fase pré-ictal: alguns pets ficam agitados, ansiosos ou “diferentes” minutos antes da crise, como se sentissem que algo vai acontecer.
- Fase ictal: é a convulsão propriamente dita, com os sinais descritos acima.
- Fase pós-ictal: depois que os movimentos param, é comum o pet ficar desorientado, andar em círculos, esbarrar em móveis ou parecer confuso por alguns minutos até horas. Isso faz parte da recuperação neurológica e não é, por si só, um novo episódio.
Segundo a Cornell University College of Veterinary Medicine, o pet não tem consciência do que está acontecendo durante a crise e não está no controle dos próprios movimentos, o que explica por que ele não reconhece o tutor tentando ajudar nesse momento.
Causas mais prováveis de convulsão em cães e gatos
Existem várias causas possíveis, e só um médico veterinário consegue confirmar qual delas está por trás da crise do seu pet. As mais comuns são:
Epilepsia idiopática
É a causa mais frequente de convulsões recorrentes em cães, geralmente diagnosticada quando os primeiros episódios aparecem entre 6 meses e 6 anos de idade, segundo o Consenso da ACVIM (American College of Veterinary Internal Medicine) sobre manejo de crises convulsivas em cães. É chamada de “idiopática” justamente porque, depois de descartadas outras causas, não se encontra uma lesão estrutural no cérebro que explique as crises.
Alterações metabólicas
Quedas bruscas de açúcar no sangue (hipoglicemia) e disfunções no fígado, como a encefalopatia hepática, estão entre as causas metabólicas mais comuns de convulsão, de acordo com o Merck Veterinary Manual. Nesses casos, a crise é reflexo de um desequilíbrio no corpo que afeta o funcionamento do cérebro, e não uma doença neurológica propriamente dita.
Intoxicações
Ingestão de substâncias tóxicas (chocolate, produtos de limpeza, plantas, medicamentos de uso humano, agrotóxicos, entre outros) é outra causa relevante e costuma exigir atendimento rápido, já que o quadro pode evoluir com velocidade.
Outras causas menos comuns
Traumas na cabeça, tumores cerebrais, infecções do sistema nervoso e doenças renais também podem desencadear crises convulsivas, segundo o Merck Veterinary Manual. O CRMV-SP (Conselho Regional de Medicina Veterinária de São Paulo) reforça que as causas são numerosas, o que torna a avaliação profissional indispensável em todo episódio, mesmo que pareça isolado.
Em nenhum desses cenários é seguro tentar adivinhar a causa em casa ou administrar qualquer medicamento por conta própria. Isso vale mesmo que o pet já tenha tido crises antes.
O que fazer durante a crise convulsiva: passo a passo
- Mantenha a calma e observe a duração da crise. Crises com mais de 5 minutos são sinal de que algo está errado e pedem hospital 24h imediatamente. Mas se for a primeira vez que o pet convulsiona, procure atendimento mesmo que a crise já tenha passado rápido, independente da duração.
- Afaste móveis e objetos próximos que possam machucar o pet durante os movimentos involuntários, e impeça o acesso a escadas.
- Diminua a luz e o som do ambiente. Um espaço mais escuro e silencioso reduz estímulos que podem prolongar ou intensificar a crise.
- Não deixe o pet sozinho, mas também não o toque diretamente enquanto a crise estiver acontecendo.
- Se possível, grave um vídeo do episódio com o celular, a uma distância segura. Essa gravação ajuda muito o médico veterinário a confirmar o diagnóstico depois, conforme recomenda a Cornell University.
- Dê espaço para a fase pós-ictal. Quando a crise passar, o pet pode ficar desorientado por alguns minutos. Fale baixo, evite manuseá-lo bruscamente e observe se ele volta ao normal.
O que não fazer (e por que isso importa)
Não coloque a mão ou qualquer objeto na boca dele
Esse é um dos mitos mais antigos sobre convulsão, tanto em pets quanto em pessoas: a ideia de que o pet pode “engolir a língua”. Isso não acontece. Anatomicamente, não é possível. O real risco de colocar a mão na boca do pet durante a crise é você ser mordido, já que os movimentos da mandíbula nesse momento são involuntários, fortes e fora do controle dele. A própria Cornell University orienta explicitamente: mantenha as mãos longe da boca do pet para não se machucar.
Não contenha o corpo dele à força
Segurar o pet para “fazer a crise parar mais rápido” não funciona e pode causar lesões, tanto nele quanto em você. Como os movimentos são involuntários, a contenção física só aumenta o risco de fraturas, luxações e arranhões, sem qualquer benefício para a duração ou intensidade da crise.
Não ofereça água ou comida durante a crise
Durante a convulsão e por um período depois dela, o reflexo de deglutição do pet pode estar comprometido. Oferecer água ou comida nesse intervalo aumenta o risco de bronco aspiração, ou seja, do líquido ou alimento ir parar nas vias respiratórias em vez do estômago. Espere a recuperação completa da consciência antes de oferecer qualquer coisa.
Quando é uma emergência real: vá direto ao hospital 24h
Nem toda crise convulsiva exige corrida até o hospital no mesmo instante, mas existem três situações em que a resposta precisa ser imediata:
- A crise dura mais de 5 minutos. Esse quadro é chamado de estado de mal epiléptico (status epilepticus) e é considerado uma emergência médica, segundo a Cornell University e o consenso da ACVIM sobre o tema. Quanto mais tempo o cérebro passa em atividade elétrica descontrolada, maior o risco de complicações graves e de sequelas neurológicas permanentes.
- Há mais de uma crise no mesmo dia (as chamadas crises em salva, ou cluster seizures). Esse padrão indica que o quadro está instável e precisa de manejo profissional com urgência.
- É a primeira vez que o pet convulsiona. Mesmo que a crise tenha durado poucos segundos e já tenha passado, a primeira convulsão sempre precisa de avaliação, porque é o único jeito de identificar a causa e afastar quadros que exigem tratamento imediato.
Nessas três situações, o caminho é o mesmo: procure um hospital veterinário 24h agora, sem esperar a crise se repetir ou piorar.
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O que esperar da investigação veterinária depois da crise
Depois que a emergência é controlada, começa a etapa de investigação, e vale entender o que esperar dela para acompanhar o caso com mais segurança.
O primeiro passo costuma ser um exame clínico e neurológico completo, seguido de exames laboratoriais básicos (hemograma, bioquímico e urinálise), que ajudam a descartar causas metabólicas como as alterações de açúcar no sangue e de fígado citadas antes. O CRMV-SP explica que, em casos de crise convulsiva, é comum o pet ficar internado por um período de observação, para monitorar sinais vitais e garantir que não haja uma nova crise em sequência.
Se as crises se repetirem ou se os exames iniciais não explicarem o quadro, o médico veterinário pode indicar exames de imagem, como ressonância magnética, e, em alguns casos, coleta de líquido cefalorraquidiano (líquor), para investigar alterações estruturais, inflamatórias ou infecciosas no sistema nervoso. Segundo o Merck Veterinary Manual, esse tipo de investigação mais aprofundada costuma ser indicado quando as causas metabólicas e tóxicas já foram descartadas.
Quando todos esses exames não encontram uma causa identificável, e o pet tem pelo menos duas crises com mais de 24 horas de intervalo entre elas, o diagnóstico costuma ser epilepsia idiopática, sempre por exclusão, isto é, depois de afastar as outras possibilidades. A partir desse diagnóstico, o médico veterinário avalia se há indicação de medicação contínua para controle das crises, decisão que depende da frequência e da gravidade dos episódios de cada paciente.
Esse acompanhamento costuma envolver consultas e exames de retorno regulares. Ter um plano de saúde ativo facilita esse tipo de cuidado contínuo: conheça as categorias do plano de saúde WeVets.
A estrutura da WeVets para emergências neurológicas
A WeVets é o maior grupo de saúde veterinária do Brasil, com hospitais próprios de atendimento 24 horas e também ampla rede credenciada complementar em diversas regiões do país. Emergências como uma convulsão em andamento não esperam horário comercial, e é para isso que a estrutura de urgência 24h existe.
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Fontes
- CRMV-SP (Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo) – Aprenda a lidar com a convulsão em cães e gatos
- Merck Veterinary Manual – Epilepsy in Small Animals
- Cornell University College of Veterinary Medicine – Managing Seizures
- Cornell University College of Veterinary Medicine – Idiopathic Epilepsy in Dogs
- ACVIM (American College of Veterinary Internal Medicine) – 2015 ACVIM Small Animal Consensus Statement on Seizure Management in Dogs
Por Dra. Renata Tolezano, médica veterinária da WeVets (CRMV-SP nº 34166).
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